O ARS é provavelmente a manobra mais desejada do bodyboard. Todo mundo quer mandar. E é justamente essa ânsia que atrapalha.
Porque de tanto querer completar a manobra, a pessoa vai direto para a manobra. E o ARS não é uma manobra sozinha. Ele é a soma de outras três que precisam estar funcionando antes.
Eu vou te dar duas dicas aqui. A primeira é bem prática, é um ajuste que você faz já no próximo surf e resolve o erro mais comum de todos. A segunda é a mais importante de todas, e é a que quase ninguém quer ouvir.
Vamos nessa.
- O que a sigla ARS quer dizer, e por que isso muda a forma de treinar
- Dica 1: o peso na volta da manobra
- Dica 2: os três fundamentos que sustentam o ARS
- Como treinar ARS em mar pequeno
Prefere assistir? Este artigo é a versão escrita da aula, com mais detalhe em cada uma das duas dicas.
Antes de tudo: você sabe o que ARS significa?
Essa pergunta parece boba e ela é a mais importante do artigo inteiro.
ARS = A de Aéreo, R de Rolo, S de Spin, que é o 360 normal.
Ou seja, o ARS não é uma manobra nova que você aprende do zero. Ele é a junção de três manobras que você já deveria estar fazendo bem separadas.
E é por isso que tanta gente faz ARS e o ARS sai capenga. A pessoa consegue juntar as três coisas mal feitas e o resultado é uma manobra que, esteticamente, fica pior do que um 360 bem feito. Eu prefiro ver um 360 limpo do que um ARS de qualquer jeito.
“Se você não faz bem o aéreo, o rolo e o 360 separados, é muito difícil o ARS sair bonito.”Isabela Sousa
Guarda isso, porque as duas dicas a seguir saem daí.
01. Dica 1: na volta da manobra, o peso vai para trás
Essa é a dica prática, a que você aplica amanhã.
Muita gente até faz o movimento. Sai do lip, faz a manobra no ar, e na hora de voltar acontece sempre a mesma coisa: a prancha toca na água e embica. Ou derrapa. E a pessoa cai sem entender o que aconteceu.
Não é azar e não é falta de força. Na maioria esmagadora das vezes é peso todo para a frente da prancha no momento da volta.
Pensa no que acontece. Você está no ar, o corpo naturalmente projetado para a frente, e volta nessa mesma posição. O nose toca primeiro, crava na água e a prancha para. Você não para junto. É aí que vem a embicada.
Na hora que você sentir que tocou na água na volta da manobra, joga o peso para trás da prancha. Nunca ficar lá na frente. Sentiu o toque, volta para trás.
Parece pouco. Não é. É o tipo de detalhe que transforma uma manobra que você quase fecha numa manobra que você fecha.
E aqui já vale a conexão com uma coisa que eu falo muito: isso é peso. É jogo de peso na prancha. É a mesma ferramenta que faz o 360 girar, que faz a prancha responder na cavada, que decide se você vai conseguir projetar. Se você nunca pensou onde está o seu peso em cada momento da onda, essa dica vai te ajudar aqui, mas o problema de fundo vai continuar aparecendo em outras manobras.
TREINO FÍSICO · BODYBOARD
Exercícios de bodyboard para a academia
O 360, o rolo e o ARS pedem explosão, estabilidade e controle do corpo. Neste treino, eu reúno exercícios inspirados em mais de 20 anos de bodyboard para você preparar o core, ganhar força e chegar na água mais pronto para executar suas manobras.
CONHECER O TREINO FÍSICOUm complemento prático para organizar sua preparação fora da água.02. Dica 2: resolve o A, o R e o S antes de juntar os três
Essa é a mais importante de todas, e é a que ninguém quer ouvir.
A ansiedade de completar a manobra faz a pessoa pular os fundamentos. Ela vai direto tentar o ARS, erra, tenta de novo, erra de novo, e conclui que “ainda não é para mim”. Não é isso. É que os três pedaços não estão prontos.
Vamos por partes.
O S: o 360
Aqui tem duas coisas que eu vejo o tempo todo.
A primeira é peso central. A pessoa faz a manobra com o peso parado no meio da prancha e não se mexe em cima dela. Dá para completar um 360 assim, mas você não leva ele para o próximo nível, e o ARS é próximo nível.
Lembrando que o ARS é uma manobra normal, ou seja, a rotação é para a parede da onda. Diferente do invertido, que inverte o fluxo. Nas manobras normais o peso vai mais para a frente da prancha, e o giro acontece na direção da parede.
A segunda é o ombro. Muita gente faz o 360 olhando por baixo do ombro. O pescoço trava, o corpo fica espatifado na prancha e você perde o ponto de rotação. O certo é girar por cima do ombro. Quanto mais compacto você fica na prancha, melhor o giro.
O R: o rolo
O sintoma clássico de quem não projeta o rolo é este: toda vez que vai subir para o rolo, parece que você está de costas para a onda, com o corpo direcionado para baixo.
Isso quase sempre é ombro também. Sem rotação de ombro você não consegue cravar a borda da prancha na água, e sem cravar a borda a prancha não projeta. Sai um rolo baixo, sem altura, que nunca vai virar ARS.
E olha o detalhe: o ombro de dentro, que é o ombro da base em que você está surfando, é quem guia a forma como você crava a borda. Numa esquerda, é o ombro esquerdo.
O A: o aéreo
A projeção. Se você não consegue projetar para um aéreo, você não tem de onde tirar a altura e o tempo de ar que o ARS pede.
E aqui volta tudo para o mesmo lugar: cavada fechada para chegar no lip com velocidade e ângulo, ombro para cravar a borda, peso para a prancha responder.
“Quem consegue fazer bem o rolo, o 360 e projetar para o aéreo já está com meio caminho andado para mandar um ARS bonito.”Isabela Sousa
E o erro que sustenta todos os outros
Tem um terceiro erro que é o mais silencioso: querer uma dica de manobra em vez de querer aprender bodyboard.
O bodyboard é um ecossistema de conhecimento. Se você pula uma fase, isso reflete no seu desempenho inteiro. Para mandar uma manobra você precisa antes se posicionar bem no pico, descer a onda no momento estratégico, ter boa remada, bom takeoff, boa cavada e entender que linha de onda usar. Só então você ataca a manobra, e precisa chegar lá com velocidade, liberdade e power.
Focar só na dica da manobra é o caminho mais longo. Parece o mais curto, mas não é.
Você não precisa esperar o mar ficar irado
Essa parte vale ouro para quem surfa em praia de onda pequena.
Muita gente fica esperando o mar encher para treinar manobra de alta performance. E aí passa o ano inteiro esperando. O ARS é uma manobra de nível mais alto, é verdade. Mas os pedaços dele você treina em mar pequeno.
Em mar ruim você treina 360. Treina rolo. Treina o jogo de projeção. Treina a cavada fechada. Treina o movimento do ombro. E quando o mar sobe um pouquinho, você já chega lá com esse domínio no corpo, em vez de chegar querendo descobrir tudo na hora.
Essa mudança de mentalidade muda o ano inteiro de treino: em vez de “o mar está pequeno, não dá para treinar nada”, vira “o mar está pequeno, então hoje é dia de projeção”.
- Na volta da manobra, sentiu a água, joga o peso para trás da prancha.
- Resolve aéreo, rolo e 360 separados antes de tentar juntar os três.
E os três pontos técnicos que aparecem nos dois: peso na prancha, rotação de ombro e cavada. Se você travar em algum, é aí que está a resposta.
PARA VOCÊ REFLETIR
Ponto 1: você quer a manobra ou quer o bodyboard?
Tem uma pergunta que eu faço para os meus alunos e que costuma dar um nó na cabeça de quem ouve pela primeira vez.
O que você quer: fechar essa manobra específica, ou surfar melhor?
Não é a mesma coisa. Dá para fechar um ARS uma vez, numa onda perfeita, num dia de sorte, e não conseguir repetir por meses. E dá para melhorar peso, ombro e cavada e ver três manobras diferentes melhorarem ao mesmo tempo, sem você ter treinado nenhuma delas diretamente.
Uma coisa que eu falo muito e que quase ninguém acredita de primeira: às vezes você nem faz uma manobra em si, só faz um movimento na onda com a prancha, joga uma água, e aquilo vale mais do que uma manobra de alta performance mal executada. Porque ali você estava conectado com a onda.
A pergunta que eu deixo: o seu treino de hoje está mirando a manobra ou está mirando o movimento que sustenta todas elas?
PARA VOCÊ REFLETIR
Ponto 2: quantas vezes você já culpou o mar?
“Não deu para treinar, o mar estava pequeno.” “A onda não ajudou.” “Hoje estava sem série.”
Eu já falei isso também, todo mundo já falou. Mas quando eu olho para trás, a verdade é que os meus maiores saltos técnicos não vieram dos mares bons. Vieram de períodos em que eu estava treinando uma coisa específica e repetindo ela em qualquer condição.
O mar bom mostra o que você já sabe. O mar pequeno é onde você constrói.
Eu sou do Ceará, onde a onda é pequena o ano inteiro, e fui conhecida no circuito mundial justamente pelas manobras aéreas. Isso não é coincidência.
A pergunta: na sua última semana, quantas sessões foram treino de verdade e quantas foram esperar a onda boa aparecer?
O PRÓXIMO PASSO
Quer o passo a passo completo até o voo?
O Bodyboard Pro Flying é o meu treinamento online de bodyboard. Eu começo corrigindo a sua base inteira, passo por leitura de mar, escolha de onda e linha de onda, que é onde mais gente se perde, e vou até o ataque ao lip como um pro.
Tem exercício para fazer em casa, grupo dos alunos no WhatsApp e um ano de videoanálise comigo. Todo mês eu entro lá, analiso os vídeos um por um e devolvo um plano personalizado.
CONHECER O BODYBOARD PRO FLYINGPerguntas frequentes
O que significa ARS no bodyboard?
ARS é a sigla de Aéreo, Rolo e Spin. O spin é o 360 normal. É uma manobra composta: você projeta para o aéreo, faz a rotação do rolo e completa o giro de 360 na direção da parede da onda.
Por que a minha prancha embica quando eu volto do ARS?
Quase sempre porque o seu peso está todo para a frente da prancha na hora da volta. O nose toca a água primeiro, crava e a prancha para. Na hora que você sentir o toque na água, joga o peso para trás.
Preciso saber fazer 360 e rolo antes de tentar ARS?
Precisa, se você quer um ARS bonito. Dá para completar um ARS com os fundamentos mal resolvidos, mas a manobra sai bolada e a volta sai capenga. Eu prefiro ver um 360 bem feito do que um ARS de qualquer jeito.
Dá para treinar ARS em mar pequeno?
O ARS inteiro não, ele pede uma onda que te dê rampa. Mas os pedaços dele sim: 360, rolo, projeção, cavada fechada e movimento de ombro se treinam em mar pequeno. Quando o mar sobe, você chega com isso pronto.
Por que o ombro atrapalha tanto as minhas manobras?
Porque é o ombro que guia como você crava a borda da prancha na água. Sem essa rotação você não fecha a cavada, não projeta o rolo e perde o ponto de rotação no 360. É um detalhe pequeno que vira problema crônico quando passa despercebido.

